Existe um conselho de startup que parece inteligente até você tentar aplicar:

“Não se apaixone pela solução.”

Bonito.

Na prática, founder passa três anos construindo uma coisa, contrata gente, levanta dinheiro, conta para a família e coloca o nome no LinkedIn.

Aí alguém fala:

“Talvez isso não funcione.”

Super fácil desapegar.

A história do Slack é útil justamente porque não nasceu de uma grande visão sobre comunicação corporativa.

Nasceu de um jogo.

A empresa Tiny Speck, liderada por Stewart Butterfield, estava construindo um game online chamado Glitch. Para trabalhar distribuído, o time criou ferramentas internas de comunicação.

O jogo não deu certo.

A ferramenta interna, sim.

Quando Glitch fechou, a equipe percebeu que havia construído algo com potencial muito maior do que o produto que tentava salvar.

Esse tipo de pivot é raro porque exige uma combinação desagradável de lucidez e humildade.

Você precisa aceitar que a coisa em que apostou não é a coisa.

E, ao mesmo tempo, enxergar valor num subproduto que talvez ninguém tivesse colocado no pitch original.

Startups vivem cheias desses subprodutos.

Dashboard interno. Ferramenta de automação. Módulo de pagamento. Processo de suporte. Base de dados. API. Workflow.

Na maioria dos casos, devem continuar internos.

Mas às vezes o pedaço lateral resolve um problema mais universal do que o produto central.

A pergunta interessante é:

“Se essa empresa acabasse amanhã, qual ferramenta interna alguém tentaria levar para outra empresa?”

Essa pergunta expõe valor invisível.

Também ensina outra coisa.

Pivot não é trocar de ideia porque a semana foi ruim. Pivot bom preserva aprendizado.

Tiny Speck não voltou ao zero.

Levou equipe, tecnologia, experiência de colaboração remota e uma ferramenta que já havia sido usada intensamente.

O fracasso do jogo produziu informação.

Isso é muito diferente de simplesmente desistir.

A indústria romantiza pivot porque conhece histórias como Slack.

Esquece que pivot também pode ser uma forma sofisticada de nunca terminar nada.

A diferença costuma estar na evidência.

Existe uso? Existe dor? Existe comportamento? Existe algo que funciona melhor do que a tese original?

Se sim, talvez valha olhar.

O produto que salva a empresa pode estar escondido numa pasta chamada “ferramenta interna - provisório”.

Provisório é uma palavra engraçada em tecnologia.

Às vezes dura vinte anos.

Fontes que entraram na análise

  • Slack historical accounts / public history of Tiny Speck and Glitch
  • Wikipedia summary used only to verify timeline