Existe uma versão muito bem editada da história de startup. Dois founders. Um apartamento. Uma ideia. Alguns investidores. Um unicórnio.
É quase um conto infantil, só que com cap table.
A história real do Airbnb tem uma parte melhor.
Cereal.
Em 2008, a empresa estava sem dinheiro e ainda tentando provar que pessoas aceitariam dormir na casa de estranhos. Brian Chesky e Joe Gebbia aproveitaram a eleição presidencial americana e criaram caixas de cereal de edição limitada: Obama O's e Cap'n McCain's.
Venderam as caixas como item colecionável.
Segundo relatos da época, arrecadaram algo em torno de US$ 30 mil.
Não com hospedagem.
Com cereal.
É difícil imaginar hoje uma empresa que vale dezenas de bilhões passando por uma fase em que seu melhor produto de monetização tinha flocos de milho.
Mas é justamente por isso que a história presta.
Founder adora falar de foco.
E foco é importante.
Só que sobrevivência também.
Os fundadores do Airbnb não concluíram:
“Nosso TAM agora é café da manhã.”
Usaram criatividade para ganhar tempo.
Essa diferença é essencial.
Gambiarra estratégica não é mudar de negócio toda semana.
É resolver um problema imediato sem perder a tese principal.
A história também chamou a atenção de Paul Graham, da Y Combinator. A interpretação era simples: se aqueles caras eram capazes de vender cereal político para manter a empresa viva, talvez tivessem a persistência necessária para fazer funcionar uma ideia que muita gente considerava absurda.
Isso é um ativo de founder difícil de medir.
Capacidade de continuar.
Não teimosia cega.
Continuar aprendendo. Continuar ajustando. Continuar vendendo. Continuar sobrevivendo. Startups morrem por razões sofisticadas.
Mercado. Unit economics. Regulação. Execução.
E morrem também por uma razão extremamente simples:
acabou o dinheiro antes da próxima descoberta.
O cereal do Airbnb não provou product-market fit.
Provou tempo de vida.
Às vezes, isso é o que separa uma empresa fracassada de uma empresa que ainda terá chance de descobrir o que funciona.
A lição não é “faça qualquer coisa por dinheiro”.
É mais sutil.
Não confunda dignidade estética com estratégia.
Founder costuma imaginar que cada passo precisa parecer coerente para um documentário futuro.
Não precisa.
Às vezes a coisa mais estratégica que você pode fazer é uma solução temporária, meio ridícula e absolutamente necessária.
Se funcionar, alguém reconta depois como “resiliência criativa”.
Na hora, parece só você colando rótulo numa caixa de cereal às três da manhã.
E talvez seja melhor assim.
Fontes que entraram na análise
- WIRED, 2017 - Airbnb's Surprising Path to Y Combinator
- TechCrunch, 2018 - Airbnb history and cereal boxes